quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

Desabafos ou De como dar a volta a um blogue temático quando não conseguimos produzir texto

*Foto daqui

Há dias em que sinto não ter mais forças.
Em que me sinto demasiado exausta sequer para respirar.
Em que tudo dói.
Há dias em que não apetece mais lutar.
Em que desejo cair num sono longo e profundo.
Parar de chorar.
Parar de sentir.
Parar de pensar.
Hoje é um desses dias.
Demasiado exausta física, psicológica e emocionalmente.
O trabalho tem sido intenso e acumula-se.
Os papéis para preencher, os textos para redigir, as fichas para elaborar
amontoam-se.
E as pessoas...
... continuo sem entender as pessoas,
os seus jogos, a falsidade,
a crueldade, a mentira,
a hipocrisia, a maldade...
Continuo a interrogar-me
e as questões que me ecoam na mente
ferem de gritantes,
cortam no silêncio das respostas.
Há dias em que a solidão dói ainda mais.
Em que sinto por demasia a falta de alguém em casa para me receber,
para me abraçar, para me beijar os olhos cansados...
Há dias em que parece que um comboio me passou por cima...
Hoje é um desses dias...

domingo, 5 de Outubro de 2008

Reflexões (2)

*Foto por autor desconhecido

Aqui vai mais um artigo pessoal. Aviso já de início, para depois não haver reclamações. Vai em tom de reflexão pois ando sem imaginação para escrever histórias fictícias e ultimamente preocupa-me mais a minha capacidade de conviver com a (minha) realidade.

No outro dia, apanhei o comboio para o meu local de trabalho, como faço quase todos os dias. E digo “quase” porque gosto demasiado de conduzir para ir de comboio todos os dias para onde quer que seja. Preciso do meu carro e da liberdade que este me dá. Mas voltando ao princípio, apanhei o comboio para o meu local de trabalho e senti-me observada durante bastante tempo. Quando chegou a minha saída, deixei o comboio e, assim que coloquei os pés na plataforma e dei dois passos naquela estação de destino, uma jovem abordou-me e perguntou-me:

- Desculpe. A senhora não é de Santarém?

Para já achei estranho alguém me tratar por senhora, com esta cara de miúda que tenho. Depois olhei para a jovem e achei aquilo bastante estranho.

- Sou.
- Não me está a conhecer?

Levei alguns segundos para responder, de tão estranho que aquilo me pareceu, de encontrar ali aquela rapariga. Foi assim que duas jovens de lugares de origem tão distantes quanto Santarém e Lousã, que não se viam há anos, se vieram a encontrar na estação ferroviária de Rio de Mouro!

Isto fez-me pensar como o mundo às vezes é tão pequeno e de tão grande dimensão outras tantas. A verdade é que encontro e me cruzo com as mais variadas pessoas em lugares inimagináveis, principalmente com quem não me quero ou não devo cruzar (embora não seja o caso desta rapariga). Porém, as pessoas que mais marcaram as nossas vidas ou que mais falta fazem nas nossas vidas, essas saiem na sua estação e não mais as tornamos a encontrar num qualquer comboio onde viajemos. Tenho pena disso... há gente que me faz muita falta...

Hoje sinto-me nostálgica...

sexta-feira, 19 de Setembro de 2008

Nota Editorial

A pedido do nosso ex-colaborador "Sudex",
todos os seus artigos foram retirados e eliminados.

Pequenas reflexões (na falta de tempo, vontade e inspiração para escrever “a sério”)

*Foto por Paulo Pontinha




Iniciei este blogue temático, intitulando-o “A ver passar comboios…”, não propriamente pelo prazer ou fascínio em torno deste meio de transporte mas pelo aforismo e correspondente significado. Na verdade, é uma metáfora a que ao longo da minha vida recorri não raras vezes. A estação da vida é uma soma de chegadas e partidas. A frase e a ideia não serão da minha autoria pois já as ouvi repetidas vezes nos mais variados meios, mas traduz muito bem aquilo que penso.

Porém, a minha vida pessoal e profissional tem-me obrigado nos últimos tempos a fazer uso deste meio de transporte, no meu dia-a-dia (sobretudo por razões económicas). Tenho até procurado casa junto a estações – por razões práticas de agenda.

Com isto descobri um imenso prazer em andar de comboio e desenvolvi um fascínio por estações. Gosto do comodismo, gosto de ver a paisagem lá fora, as pessoas a caminhar, os carros parados em filas de trânsito. Gosto de ver a paisagem a ficar para trás e imaginar que é o passado que passa por mim até não mais o conseguir alcançar. Gosto das estações de comboio, do movimento agitado das pessoas que me faz repensar a vida e querer abrandar, das despedidas carinhosas, das despedidas necessárias e dos calorosos reencontros. Gosto das malas de viagem que me lembram outras chegadas e partidas em momentos sempre felizes da minha vida. Gosto da Estação de Roma-Areeiro porque lá muito perto construí um lar, mesmo que por um muito breve período de tempo, que tive muita tristeza em abandonar. E gosto da bonita e renovada Estação do Rossio, com um ambiente e arquitectura absolutamente romântico e europeu, com os seus candeeiros de pé alto.


Não quero ficar a ver passar comboios. Cansei de ver outros passageiros tomar o meu lugar. Quero apanhar o comboio do hoje e agora.



domingo, 7 de Setembro de 2008

Linhas Férreas de Desilusão

*Foto por Inácio Silva



«'O ser humano é um ser perturbável'


Que fizemos nós, humanos entre humanos, que deuses criamos e derrubamos? Vês os calos que preenchem tuas mãos fazendo traços sobre traços? Não são linhas de destino são linhas férreas de desilusão





Texto de Henrik, em PkInstantes

sábado, 6 de Setembro de 2008

Lições de Vida em Conversas de Comboio

*Foto por Rui Pinto



Numa das minhas recentes viagens de comboio, em dia de abertura de mais uma festa do Avante, estava eu imersa na leitura de África Minha quando dei por mim a ouvir a conversa que vos vou relatar, entre duas mulheres de diferentes gerações. Uma era uma jovem, vinha da Guarda e dirigia-se à festa vermelha; a outra era uma mulher de cinquenta anos que se ia encontrar com a filha na Estação do Oriente. Encontraram-se a meio do caminho e ao olhar a parafernália de mochilas que a jovem trazia, a mais velha resolveu meter conversa com ela e interrogá-la se também não ia para a Festa do Avante, ao que a jovem anuiu. A mais velha contou, então, que tinha reparado nas sua bagagem e se tinha lembrado da filha que também ia para o mesmo sítio e com quem ela se ia encontrar no Oriente pois – imagine-se! – se havia esquecido do bilhete de entrada em casa! Contou que a filha estava nervosa porque estava sozinha e ainda tinha de apanhar uma série de transportes. A jovem de imediato se voluntariou para dar boleia à rapariga no carro de uma amiga que a iria buscar à estação. Com isto a cunplicidade entre estas duas mulheres foi imediata e daqui partiram para outras reflexões sobre a vida e começaram a fazer confidências pois toda a história de vida traz uma lição.

- Há males que vêm por bem.
- Pois é, vê? Estava destinado ela esquecer-se do bilhete em casa. Isto nós é que somos muito negativos e, quando algo de mau nos acontece, a carga negativa é tão forte que não conseguimos ver mais nada. Mas por trás de algo mau também vem sempre algo bom, outra saída.


Não sei como mas a partir daqui a jovem desabafa que o (ex)namorado tinha rompido com ela e que ainda estava a sofrer muito com isso. Despertei! Pensei: «mais uma...». Quando a mais velha nos deu uma lição de vida:

- Eu estive casada mais de vinte anos e um dia o meu marido resolveu que não queria continuar comigo. Sofri muito e ainda sofro mas não há um só dia em que não sorria porque é assim que se vence. Fiquei tesa. Ele tem muito dinheiro, mas não tem mais nada! E não somos nós que perdemos. Eu tenho pena é deles, deles que nos perderam. Eles é que são tristes por nos terem perdido. (...)


É curioso como eu sempre pensei assim em relação a quem perdi. Sempre soube que eu é que estava a perder. Mas nunca tinha pensado o mesmo em situação contrária...
E a mais velha continuou:


- Vou-lhe contar uma coisa que muitos acham estranha. Eu chamo-me Ana Rita. Antes de me divorciar era conhecida como Ana. Quando me divorciei e conhecia alguém novo e me perguntavam o nome dizia que era a Rita. Foi como arranjar uma nova identidade. Eu precisava de mudar, de começar do princípio. E resultou. Foi como se fosse uma nova mulher.


Boa tarde, o meu nome é Ângela Margarida e hoje sou apenas Margarida.

terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Dos Novos e (In)Esperados Caminhos da Infelicidade

*Foto por Paulo Santos




Escrevia eu há uns meses (não muitos... aliás, demasiado recente):





"Toda a vida fui decidida mas agora... tenho medo... E se a meio do caminho o comboio pára novamente para me expulsarem de lá? E se não chego ao meu destino?"





Pois...

terça-feira, 22 de Julho de 2008

Esboço de um Conto de Fadas Mal Contado

*Foto do blog: segredoscontados.nireblog.com



Era uma vez uma linda princesa... bem, não era de sangue azul e a monarquia há muito estava extinta; também não era propriamente bonita, não era alta, loura, de olhos azuis e de medidas 86-60-86 - era pequenina, frágil, cabelos acobreados e olhos de azeitona. Mas queria sentir-se como uma princesa dos contos de fada que ouvia em criança e que a faziam sonhar com castelos e príncipes encantados de armadura reluzente, montados em lindos corcéis brancos. Queria viver um final feliz para sempre.



Mas a jovem-mulher-que-não-era-princesa não vislumbrava castelos, somente fortalezas. Encontrava-se rodeada por prédios degradados e sem dinheiro para a renda. Não tinha aias a quem suspirar os seus desamores. Convivia com bruxas más que se intrometiam na sua vida pessoal e lhe quebravam as forças.



Afinal, talvez esta jovem mulher que sonhara em ser princesa fosse a gata borralheira, uma vez que passava os dias a limpar a casa e a passar a roupa. Nesse caso, tornar-se-ia Cinderela assim que achasse o seu sapatinho de cristal. No entanto, as sapatarias não tinham o número 34 para adulto.



Pensou, então, em cair num sono profundo, qual Bela Adormecida, esperando despertar com o beijo do amor verdadeiro. Assim, fechou as cortinas e tomou uma série de ansiolíticos e calmantes. Mesmo assim, despertou com uma voz bem grossa e assertiva - o patrão que gritava: «Não há nada que se coma nesta casa!!»



A jovem mulher aspirante a princesa suspirou e lentamente caía em desalento. O príncipe encantado transformara-se num ogre, de olhos raiados de sangue, voz grossa e assustadora e o sapo beijado mas recusado devido à pele esverdeada e toque viscoso transformara-se em príncipe depois de ela o ter mandado embora e vivia feliz para sempre com uma princesa que se transformara em rã.



Esperava ainda o corcel branco, veículo de fuga para um mundo de fantasia, onde ela pudesse encontrar uma torre onde se fechasse em clausura, qual Rapunzel, e onde vivesse o resto dos seus dias olhando o horizonte. Encontrou o seu corcel. Não era branco nem relinchava, nem tinha uma sedosa crina que pudesse afagar. Era um monstro cinzento de metal que fazia um barulho estrondoso e andava sobre carris. Entrou na locomotiva e expulsou o condutor. Fechou as portas, puxou a alavanca e partiu a todo o vapor, descarrilando o comboio apenas alguns metros à frente. Partira, finalmente, para o paraíso dos seus sonhos.