sábado, 22 de dezembro de 2007
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Em Busca da Felicidade (Parte V)

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007
Em Busca da Felicidade (Parte IV)

No seu colo permanecia um jornal de aspecto político ou económico que trazia na fila debaixo do braço... que ali jazia... imóvel... exactamente como fora deixado quando o seu dono ocupou aquele lugar... nem sequer os olhos por ele passou... estava... hipnotizado... catatónico... apenas as funções vitais pareciam funcionar...
Hora de saída... mais apressadamente que nunca ela arrumou todas as suas coisas... a sua mesa ficou de uma forma que quase parecia que ia de ferias ou pelo menos, ficar ausente do emprego por vários dias... olhou para a porta lateral e ele rapidamente seguiu o seu olhar percebendo de imediato o que ela lhe estava a querer dizer...
Levantou-se e saiu num flash e esperou a sua saída em frente à porta... ela saiu... olhando para o chão com um aspecto tímido e inseguro... lentamente foi levantando o olhar até estar olhos-nos-olhos com aquele homem... lentamente ele alcançou a sua mão gelada e tremula e a acariciou levemente... entrelaçaram os dedos dando as mãos... e iniciaram uma caminhada pelo passeio...
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Em busca da Felicidade (Parte III)

Aguardando mais alguns segundos em frente ao vidro que os separava, ele ali aguardava... não sabia bem o que esperar ou o que estava à espera... mas não parecia querer mover-se um milímetro que fosse... MEXEU-SE... voltou-se quase 180º como quem se vai afastar ou ir embora... sendo esse o único gesto que fez descolar a garganta daquela vendedora de bilhetes – Onde vai?! – disse ela assustada. – Vai-se embora?!
Não!! – disse esboçando um sorriso – vou ficar aqui... daqui não saio sem uma resposta sua... sentando-se, ao fundo da sala... no ultimo banco... o mais longe da bilheteira mas estrategicamente de FRENTE para ela... e ali ficou... aguardando... pacientemente...
(To be Continued)
terça-feira, 27 de novembro de 2007
Viagens (Pensamento)

segunda-feira, 26 de novembro de 2007
Em Busca da Felicidade (Parte II)

Acordando deste estado de hipnose ele disse - Peço desculpa menina, não me fiz entender e acabei por estar a fazê-la perder o seu tempo... a verdade é que não conheço nem pretendo ir para nenhuma localidade com esse nome... mas é verdade que o que pretendo de si é um “bilhete virtual” para a felicidade... há meses que por aqui passo e compro bilhetes para locais onde nunca fui, reservo lugares em comboios onde nunca entrei, ocupo cadeiras onde nunca sequer fiz tensão de me sentar... por um motivo apenas... para a ver... para falar consigo... para a poder olhar de mais perto... essa é a verdade... estou apaixonado por si... penso em si mais vezes por dia do que o numero de bilhetes que vende... é isso que quero de si hoje... o único bilhete verdadeiro... aquele que quero na realidade usar e guardar comigo... pois não passa de validade...
Um silêncio ainda maior tomou conta da estação... as pessoas calaram... gelaram... parecia que o tempo havia parado e até os comboios tinham deixado de passar... um raio de sol entrou pela janela e iluminou o rosto da menina da bilheteira reflectindo-se com maior intensidade numa gotinha... numa pequenina lágrima de emoção que lhe escorria pela face... os seus olhos brilhavam como nunca antes haviam brilhado parecendo duas estrelas...
O silêncio quebrou-se por um aplauso tímido ao fundo da fila que, qual onda que se forma no mar e se estende e ganha força até rebentar na praia, se propagou e contagiou todos os presentes tornando-se num aplauso sonoro e ruidoso que agora se fazia ouvir. Á medida que o aplauso aumentava de volume também as lágrimas de emoção aumentavam o seu ritmo de formação e queda no rosto da menina da bilheteira que chorava agora copiosamente...
(To be continued)
quinta-feira, 22 de novembro de 2007
Em Busca da Felicidade (Parte I)

A fila avançava lentamente e após alguns minutos o mesmo homem ficou cara-a-cara com a menina da bilheteira.
Fez-se um silêncio sepulcral na bilheteira, nem as crianças que até segundos antes brincavam ruidosamente ao fundo da estação pareciam conseguir soltar um som que fosse...
A menina após alguns segundos de inércia debruçou-se sobre o ecrã do computador que tinha a frente e começou a percorre-lo de ponta a ponta numa busca quase frenética... as pessoas que aguardavam na fila começavam a mostrar alguma impaciência e espreitavam por cima dos ombros uns dos outros tentando perceber o que se passava e o porquê da fila não avançar...
Mais uma tentativa... de busca... mas em vão... levantou-se a abandonou por momentos o seu lugar perante o quase desespero dos muitos que aguardavam na fila de espera... dirigiu-se ao gabinete do chefe da estação... após alguns segundos voltou com o mesmo olhar triste com que tinha entrado... dirigiu-se ao cliente e disse: Olhe, o senhor desculpe... mas é que eu não consigo encontrar nenhuma localidade com o nome que me indicou...
Ele... apenas sorriu...
quarta-feira, 14 de novembro de 2007
Pensamentos em Surdina (ou um post do meu tamanho: pequenino)
*Foto por Cláudio Márcio LopesNovamente a vida os juntou, num outro comboio, a uma hora diferente do habitual.
A cidade acordava lentamente para a agitação e o corropio natural de uma semana que ainda vai a meio. O sol espreitava pela manhã mas, ainda ensonado, não abraçava os corpos de quem na rua passava.
Numa ponta da carruagem ela tremia e perguntava-se por que raio achava que ia ter calor e não houvera vestido um casaco, enquanto o seu olhar ia perscrutando os lugares ao seu redor e olhava com ansiedade para o relógio e para o telemóvel. Estava atrasado... porque não chegava nem dizia nada? Finalmente, viu-o ao fundo da carruagem. Expectante. Ansioso também. “Tonto. Enganaste-te. Era no 7 e não no 17.”
- Já ali estava há 5 minutos à tua espera...
- Ali? Não te vi...
- Pois eu reparei... tentei fazer-te sinal mas tu nada.
Olharam-se. Sorriram-se e repente ela sentiu-se quente e aconchegada. “Como a vida brinca connosco... Como a vida brinca...”
sexta-feira, 12 de outubro de 2007
Uma Viagem... Uma Vida (Parte I)
Foto por: Flávio Henrique VieiraEntraram apressados e nervosos... o comboio já estava em andamento e a ganhar velocidade... tinham sido apanhados de surpresa com aquela viagem apesar do bilhete há muito comprado... e tantas vezes verificado e registado para não esquecer a data...
Os seus corações cavalgavam à velocidade da luz e pareciam a todo o momento querer sair do peito... tinham vivido momentos de alguma apreensão e... até algum pânico... mas agora esses sentimentos já estavam ultrapassados... ou melhor... permaneciam... mas algo transformados... digamos que os sentimentos eram agora como setas que apontavam para outras direcções...
Inicio de viagem conturbado... difícil... mas tudo o que os esperava não se adivinhava mais fácil, bem pelo contrário... por isso que os sentimentos eram confusos... ALEGRIA, FELICIDADE por um lado... e APREENSÃO e INSEGURANÇA por outro digladiavam-se a cada minuto... todos os minutos... das 24 horas do dia...
Por essa altura... essa era outra coisa que parecia ter mudado... o dia não parecia ter mais as 24 horas de sempre... parecia... no mínimo... ter mais umas 10 ou mais... mas todas da parte diurna... a noite parecia ter desaparecido... bem como o direito ao descanso...
Viviam momentos difíceis... o seu lugar neste comboio em andamento parecia ser o último... ao fundo... na última de todas as carruagens... mas o mais difícil era circular dentro dele de ponta a ponta por uma linha férrea sinuosa, íngreme e que não dava descanso aos passageiros...
Apesar de tudo isso... estavam felizes... cada momento daquela viagem era único... era especial... e apesar da sua dureza, com toda a certeza esta era uma viagem da qual iriam guardar todos os pormenores... para mais tarde... RECORDAR... com SAUDADE...
segunda-feira, 1 de outubro de 2007
sexta-feira, 28 de setembro de 2007
Futuro - Parte III: Confiança
*Foto por José Lopesquarta-feira, 26 de setembro de 2007
O futuro não chega

segunda-feira, 24 de setembro de 2007
O FUTURO...

Foto por: rudolfo lopes
...como em todas as segundas-feiras da sua vida, ou pelo menos até onde a memória alcança, lá ia ele no comboio que o levava todos os dias à mesma hora para o emprego... Sentado no mesmo lugar “de sempre” lá ia ela à janela mas sem ver nada do que lá fora se passava... também, o que haveria de novo para ver?! Era tudo sempre igual... sempre fora assim... e sempre assim seria... desde que se recordava saia sempre à mesma hora de casa e há mesma hora chegava ao destino... a carruagem onde sempre seguia transportava sempre as mesmas pessoas... ou, pelo menos, aos olhos dele pareciam sempre os mesmos rostos, cansados e tristes, como o dele... a caminho de apenas e só... MAIS UM DIA...
Estranhamente sentia-se observado... algo de diferente se passava naquela viagem... olhou em volta lenta e discretamente... mas tudo estava... na mesma... todos estavam a dormir ou naquele estado de hipnose de quem pensa que assim consegue aproveitar mais uns minutos do descanso que não teve durante a noite...
Algo se passava... continuava a sentir-se observado... alguém o olhava fixamente mas por muito que tentasse não conseguia ver nem quem nem de onde o fazia... olhou novamente pela janela como quem finge que tem interesse pelo movimento da cidade lá fora... subitamente, detectou um vulto no vidro... um reflexo... sim, era isso mesmo... pelo reflexo do vidro podia ver claramente alguém que o olhava fixamente... afinal tinha razão... voltou-se rapidamente mas já não viu ninguém... que estranho... ainda agora aqui estava... olhou novamente para o vidro e lá estava ele de novo... mas sempre que ele tentava visualizar esse personagem ele parecia desaparecer... estava a ficar nervoso, sem perceber o que se passava... como é que era possível?!? Só conseguia ver o homem no vidro?!? Porquê?!? Quem seria ele?!? E porque é que estava ali a olhar fixamente para ele?!? Tantas perguntas... nenhuma resposta...
Olhou novamente para o vidro e voltou a ver o reflexo do homem... mas desta vez não se voltou... olhou-o fixamente através do vidro sem pestanejar... como que a tentar intimidar o indivíduo pagando-lhe com a mesma moeda...
O que fazes?!? – Ouviu – o mesmo que tu! – Respondeu de pronto. Quem és tu? O que queres de mim? Porque me olhas assim? Conheço-te de algum lado?
Tantas perguntas – disse o homem – e a nenhuma delas vale realmente a pena responder...
O quê?!? Estás a gozar comigo não?!? – disse ele já algo enervado com a situação...
Não... nada disso... queres mesmo saber quem sou eu?! – Sou o futuro!!
O FUTURO?!? Está bem está... não me lixes... deves pensar que nasci ontem não?!?
Como queiras!! – respondeu o homem... apenas te respondi aquilo que me perguntaste... eu bem te disse que não valia a pena responder a nenhuma das tuas questões...
Hummm... ok.. imaginemos que eras mesmo o futuro... e daí... o que fazes aqui e o queres de mim?!
Eu?! – disse o homem?!? – Eu não quero nada de ti... és tu quem quer de mim...
Ai ai ai... assim não nos entendemos... eu?!? Eu nem te conheço!
Exactamente! – disse o homem – não me conheces... nem podes conhecer... como te disse sou o futuro e não o presente ou o passado... como me quererias tu conhecer?!
Oh pá!! Granda tanga... deves ser é um desses cromos que quer vender alguma treta ou dalguma dessas seitas religiosas ou o raio que o parta... procura outro pá... que de mim não levas nada...
Como te disse, de ti não pretendo nada... foste tu quem me chamou... és tu que queres algo de mim... só não sabes o quê... esse é o teu problema... e é por isso que aqui estou... para saber o que queres tu de mim...
Tá bem tá... eu?!? De ti?!? Mais dinheiro e menos horas de trabalho... é isso que eu quero!
Ok... certo... já percebi... e o que me estás tu disposta a dar em troca?
A dar em troca?!? Eu vi logo que aí havia coisa... já me estás a querer lixar...!!
Sim, claro... pensas que é só pedir?!? Eu não sou nenhum génio da lâmpada magica... não concedo desejos em troca de coisa alguma... tens que me dizer o que estás disposto a fazer para obteres o teu desejo... mas não é por mim que o fazes ou tens que fazer... é por TI... por TI PRÓPRIO?!?
Por mim?!? Tu não estas bem... de certeza!! O que é que eu posso fazer por mim que sirva de moeda de troca para tu me concederes os meus desejos... não faz sentido!!!
Olha... vou dar-te uma ajuda... existem 3 formas de me ver e de me interpretar:
- para os fracos, eu sou algo inatingível;
- para os temerosos, eu sou totalmente desconhecido;
- mas para os corajosos, eu sou a oportunidade...
Agora pensa... e escolhe... a qual destes grupos queres pertencer... não precisas de me dar resposta... assim que tiveres feito a tua escolha... EU... saberei...
segunda-feira, 10 de setembro de 2007
Viagem Adiada

Tinha uma viagem para fazer, mas desde o dia anterior parecia sentir que não era o dia certo para a fazer... algo lhe dizia isso. No entanto, lá foi, seguindo o seu caminho em direcção à estação e tudo parecia correr com normalidade...
Chegou à estação, mas apesar de não ser para ele um local desconhecido, parece que estava diferente, mudado, algo se passava... estava tudo incrivelmente calmo, calmo demais... entrou pela porta principal e reparou na bilheteira... estava vazia... ninguém... como iria ele comprar bilhete?!? Rondou todo o átrio à procura de alguém que lhe explicasse o que fazer... mas nada! Nem um simples papel ou cartaz anunciava qualquer indicação... estava tudo perfeito, limpo, arrumado, mas vazio... vazio de tudo... de pessoas, de ruídos, de gestos... parecia uma estação “fantasma”...
Olhou em volta e reparou nos únicos Seres que pareciam lembrar que o mundo não havia parado... pássaros percorriam o chão lá fora saltitando em busca de uma migalha que lhes compusesse o estômago.
Bateu a uma porta... demorada e arrastadamente ouviu um som de alguém que parecia aproximar-se... aguardou... era mesmo... afinal estava alguém... era um segurança com ar ensonado... e perguntou-lhe o que se passava... não soube responder... encolheu os ombros e sorriu como quem não entendeu uma única palavra daquilo que ele tinha dito... repetiu, voltando a dizer que precisava apanhar o comboio em direcção a Lindstrom e queria saber a linha e como fazer para comprar bilhete... voltou a sorrir, falando num dialecto desconhecido e encolhendo novamente os ombros... e agora?! – Pensou... – Como vou fazer?!
Decidiu aguardar por alguns momentos, pegou no telemóvel e ligou para a sua esposa a contar o sucedido, talvez ela soubesse de alguma coisa ou o pudesse ajudar... olhou novamente em volta e até o segurança tinha desaparecido... procurou por ele novamente junto à salinha de onde o vira sair momentos antes, mas nada! Também ele tinha sumido... não sabia o que fazer... talvez se aguardasse um pouco mais, talvez passasse alguém que lhe explicasse o que se estava a passar... mas nada...
Saiu pela porta e voltou a olhar em volta, para os pisos superiores, podia ser que detectasse neles algum movimento... mas o resultado foi exactamente o mesmo... nulo... parecia estar numa daquelas cidades fantasma do “velho oeste” pois o único barulho que se ouvia era o do vento quente...
Desistiu... não tinha como saber o que se estava a passar... voltou para casa na esperança que amanhã a estação, por “artes mágicas” volte ao normal e ele possa seguir finalmente viagem...
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
Para Sempre...

Abri os olhos lentamente, passando os dedos nos “cristais do sono” que me incomodavam e aí fiquei a observar o clarão solar que me iluminava o rosto.
Os ponteiros do relógio não cessaram as suas funções, continuaram a sua contagem dos segundos, minutos, horas e dias...
Sempre foi assim... o tempo não pára e muito menos efectua a sua viagem de retrocesso.
Desejaria muito recordar-te hoje com outros sentimentos e não a data da tua partida.
Fui caminhando de mãos dadas com o calor do brilho que me despertou até à estação de comboio, onde tu partiste.
Hoje não vim sozinha, tenho a companhia do meu Samurai "R", a quem eu vi nos teus olhos a alegria e o brilho de felicidade no vosso reencontro, e da tua netinha que muito em breve dará o seu primeiro, de muitos, choros, para anunciar a sua vinda ao mundo.
Não havia sinais de movimento, mas os rastos de memória que deixaste ao longo do caminho permanecem bem marcados em cada centímetro dos carris que se estendem a perder de vista.
Nenhum comboio espero hoje, apenas vim para te sentir e dizer-te que após um ano da tua partida, tu continuas presente nas nossas vidas com a mesma força.
O tempo pode passar e continuar a sua tarefa, mas a tua memória permanecerá para sempre entre nós.
A tua coragem e força de viver é para nós o maior orgulho, como eu quero ser para ti.
Margarida Lopes das Neves Marques é uma parte de ti e vai um dia conhecer o Vovô Billy. Ela vai poder olhar para o céu e distinguir no meio do universo a estrelinha que brilha com a mesma intensidade singular que foi a tua vida...
AMO-TE PAI!
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
O Artista...

Satisfeito da vida tinha corrido a contar a toda a gente da sua descoberta... mas logo o seu médico o avisou: “amigo, isso é mas é uma variz e o melhor é secar”...
Secar?! Não ficara nada satisfeito com a resposta... e agora?! A sua “veia artística”?! Não podia acabar assim... assim... seca, abandonada... sozinha... e triste...Nem pensar! - disse logo para si próprio colocando um ar autoritário - mas o médico repercutiu... “Oh homem dedique-se mas é à pintura... ou coisa assim”...
Este seu médico era um verdadeiro génio, um iluminado... e não é que foi mesmo isso que ele fez...
Aquilo lá no prédio onde morava ficou a parecer uma residência de artistas... ah pois!! Que ele não é o único, nem pensar!... o Armando, o seu vizinho de baixo, esse também está no ramo... aliás, acho que, na verdade, esse foi o seu grande impulsionador... não por invejas que ele não sofre disso... mas é verdade que adorava ficar a ouvi-lo na porta do prédio aos domingos à tarde a contar as suas histórias de artista... claro está... enquanto lavava o carro...
Mas, a verdade verdadinha é que o Armando era um pouco mais artista do que ele... admitia para si mesmo – “...mas eu ainda estou a começar, ele não... já anda nisto aos anos...”... para terem uma ideia, vejam lá que ele até esteve envolvido na fundação da casa do artista... aliás, segundo ele conta (não sei se é verdade ou não...) a fachada do 1º andar foi toda dele... assentou o tijolinho todo... e ainda fez o reboco... é um verdadeiro Mestre... mas não desses Mestres da têvê... nada disso... um Mestre a sério... tipo aqueles do Karaté... só que o fato de macaco dele não tem é cinto... mas também não precisa... que com a barriga que ele tem não lhe cai de certeza... mas se tivesse cinto... era preto... ah pois era... que ele não é homem de se ficar por menos... ah pois não... ainda no outro dia por causa da lavagem do carro no passeio em frente do prédio abriu a cabeça ao otário do Fonseca do 3º andar com um paralelo da calçada... bem feito... quem o manda armar-se aos cucos?!
Mas pronto... lá ia ele... pensando, falando sozinho, imaginando que um qualquer dia destes faria uma exposição “a dois”... ele e o Armando... um reboca e outro pinta... e para si pensou mais uma vez – “...vai ficar cá uma Obra...Prima... de artistas...”
sábado, 25 de agosto de 2007
"Apanhar o Comboio": o plano

Percorreu o estreito corredor da carruagem até ao bar e a cada passo que dava lembrava-se de como tudo aconteceu até ao momento em que se encontrava, todos os comboios que tinha apanhado, toda a preparação. O seu plano de vingança havia começado no manhã em que abriu o jornal e viu a fotografia de C. e a manchete que o anunciava assassinado em sua casa com brutalidade. Percebeu tudo quando viu Manuel na recepção do hotel... Nesse mesmo dia apanhou um avião para Roma, onde ficou em casa de um amigo durante um mês, planeando a melhor forma de se vingar... e hoje, após seis meses de preparação, tudo iria terminar.
terça-feira, 21 de agosto de 2007
Pequenas... GRANDES coisas

Sem saber muito bem porquê tinha comprado um bilhete... uma viagem pequenina... de 1 ou 2 paragens apenas... nem sabia muito bem porquê... era um gesto assim como quem compra uma viagem individual de Metro mas tendo passe para o mês inteiro... só para o caso de um dia vir a ser necessária... de estar precavido... era assim que ele era...
Na estação estava uma mulher, não era muito velha, mas tinha um ar pesado e cansado de quem carrega com o peso de poucos anos de idade mas de muitos de trabalho... já se tinham cruzado outras vezes, eram “conhecidos”, mas pouco... era estrangeira... ou pelo menos tinha “ares” disso... tinha uma pele morena que não era comum por aquelas paragens e já a tinha ouvido falar um dialecto pouco familiar... o seu semblante era quase sempre o mesmo... um meio-sorriso...
E ele lá continuava a contar as suas histórias e a conversar animadamente e “pelos cotovelos” como era seu timbre com a sua esposa... era essa outra característica dele... falava, falava sem parar... apesar dos amigos lhe reconhecerem qualidades como bom “ouvinte”... havia alturas que a sua vontade de falar, principalmente com a sua esposa, era tanta que parecia que não a via há séculos... e, no entanto, tinham estado apenas afastados por apenas algumas horas ou minutos...
Conversavam sobre a tal mulher... a que estava na estação juntamente com eles... comentavam qualquer coisa acerca dela...
Levantaram-se os dois e caminharam para junto dela... abordaram-na de forma simpática, tentando comunicar com ela... tiraram do bolso o bilhete que tinham comprado... o tal... e perguntaram-lhe se ela estaria interessada em ficar com ele... sucedeu o inesperado... os olhos dela brilharam... brilharam como brilham os olhos de uma criança na noite de Natal... o seu sorriso abriu-se iluminando-lhe o rosto cansado como se lhe tivessem aberto uma janela para entrar o sol da manhã... e foi com esse sorriso e brilho nos olhos que ele jamais esquecerá que ela agradeceu... agradeceu a ambos por aquele bilhete como se fosse o maior prémio que recebera na vida... e seguiu o seu caminho...
Visivelmente emocionado com aquela demonstração de gratidão por algo que para ele parecia tão pouco... tão “insignificante”... nada disse, seguiu também o seu caminho pensando... pensando... no valor... das pequenas coisas...
quinta-feira, 16 de agosto de 2007
"Apanhar o Comboio": o Louco

Esperança...
Foto por: F.LuisEntão, e atento a todas as informações... esperava... esperava... por vezes quase desesperava, mas logo recuperava a lucidez e acreditava que a hora do seu comboio iria por fim chegar.
A espaços metia conversa com este ou aquele passageiro que saíam e entravam de outros comboios que circulavam em outras linhas... também ele já pensara em diversos momentos mudar de linha... procurar um outro comboio que o levasse a outro destino, mas infelizmente o bilhete era, por ora, demasiado dispendioso e a verdade é que também lhe custava a largar definitivamente os comboios a que estava habituado e que eram a sua paixão... mas neste momento da sua vida... ele estava de peito aberto ao mundo... todas as opções pareciam fazer sentido desde que o fizessem feliz... era mesmo isso... a verdade era apenas essa... ele procurava a FELICIDADE... difícil poderão pensar... mas nem tanto... é difícil ser feliz quando se acha que para ser FELIZ é preciso ter o mundo no bolso... mas para ele a felicidade constrói-se em pequenos gestos... em movimentos inesperados... coisas que se sentem... algumas para as quais nem sequer existem palavras que as definam...Outras vezes eram os passageiros e outros transeuntes que, ao olharem para ele, ali, sentado, à espera... metiam conversa com ele... tentavam saber qual o comboio que estava à espera... alguns deles iam-lhe dando informações adicionais... as quais agradecia mas que, na verdade, não serviam de muito mais do que consolo e alimento de uma esperança que por sua vontade não vai morrer nunca... porque quando a esperança é Amor... e Amor é felicidade... e a felicidade não é algo que se possa deixar simplesmente escoar, escorrendo por entre os dedos como um punhado de areia fina... por isso ali estava... e continuava... aos olhos de alguns, possivelmente a PERDER tempo... aos seus, a absorver cada segundo que a vida tinha para lhe oferecer como um sedento por água sorve as gotas de orvalho de uma folha... e lhe sabem a mel...