sexta-feira, 21 de março de 2008

Dia Mundial da Poesia



*Foto por Nuno Inácio





Para onde vai essa mulher, a arrastar-se no passeio, agora que já é quase noite, com a almotolia na mão? Aproximai-vos: não nos vê.

Não sei o que é mais cinzento,

se o aço frio dos seus olhos,

se o cinzento debotado desse xaile

com que envolve o pescoço e a cabeça, ou se a paisagem desolada da sua alma.

Vai devagar, arrastando os pés, gastando as solas e gastando as lajes,



mas levada

per um terror

obscuro,

por uma vontadede evitar algo horrível.

Sim, estamos enganados.

Esta mulher não avança no passeio

desta cidade,

esta mulher vai por um campo hirto,

entre valas abertas, valas antigas e recentes,

e tristes montões

de humana dimensão, de terra removida,

de terra

que já não cabe na cova de onde se tirou,

entre abismais poços sombrios,

e turvas furnas súbitas,

cheias de barro e água lodosa e sudários andrajosas da cor do desespero.

Oh, sim, conheço-a.

Esta mulher conheço-a: veio num comboio,

num comboio extensíssimo;

viajou durante muitos dias

e durante muitas noites:

umas vezes nevava e estava muito frio,

outras vezes brilhava o sol e o vento sacudia

arbustos juvenisnos campos onde incessantemente estalam estranhas flores acesas.

rela viajou, viajou sempre,

enjoada pelo ruído das conversas,

pelos solavancos das rodas

e pelo fumo, pelo odor a nicotina rançosa.

Oh!:noites e dias, dias e noites, noites e dias, dias e noites,

e muitos, muitos dias,

e muitas, muitas noites.

Mas o horrível comboio foi parando

em tantas estações diferentes,



que ela não sabe ao certo nem como se chamavam, nem os lugares,

nem as épocas.

Ela

recorda apenas

que em todas era frio,

em todas era escuro,

e que ao partir, ao arrancar o comboio,

sempre compreendeu

como é brutal a investida da injustiça absoluta,

sentiu sempre

uma tristeza que era como uma centopeia monstruosa suspensa da sua face, como se com o arrancar do comboio lhe arrancassem a alma,

como se com o arrancar do comboio lhe arrancassem inumeráveis margaridas,

brancas como a sua alegria infantil na festa da aldeia, como se lhe arrancassem os dias azuis, o gozo de amar a Deus e essa von[tade de minutos em sucessão a que chamamos viver. Mas as lúgubres estações afastavam-se,

e ela assomava frenética às janelas,

gritando e retorcendo-se,



para ver afastar-se na infinita planície

isso, uma estação solitária,

um lugar

assinalado nas três dimensões do grande espaço cósmico

por uma cruz

sob as estrelas.

E adormoceu por fim.

sim, dormitou na sombra,

embalada por um fundo de longínquas conversas,

por gritos sufocados e risos embaciados,

como de gente que falasse através de mantas muito espessas,

apenas rasgadas de repente

por choros de crianças que acordam molhadas a meio da noite,

ou por cortantes guinchos de raparigas a quem nos túneis beliscam as nádegas, ... enjoada ainda pelo fumo do tabaco.

E viajou noites e dias, sim, muitos dias,

e muitas noites.



Parando sempre em estações diferentes,

sempre com uma ânsia turva de descer também, de ficar ela também, ai,

para sempre partir de novo com a alma lacerada,

para sempre dormitar de novo em trajectos infindáveis.... Não soube nunca como.

E seu sono era cada mais profundo,

iam cessando,

quase tinham cessado por fim os ruídos à sua volta:

só por vezes um riso como um punhal que brilha um instante nas sombras, um guincho como um limão acre que põe a noite amarela um momento.

E depois nada.

Só a velocidade,

só os solavancos de madeiras e ferro

do comboio,

só o ruído do comboio.

E esta mulher acordou na noite,

e estava só,

e olhou à sua volta,

e estava só,

e começou a correr pelos corredores do comboio,

de um vagão para outro,

e estava só,

e procurou o revisor, os serventes do comboio,

qualquer empregado,

algum mendigo que viajasse oculto sob um banco,

e estava só,

e gritou na escuridão,

e estava só,

e perguntou na escuridão

e estava só,

e perguntou quem conduzia,

quem movia aquele horrível comboio.

E ninguém lhe respondeu,

porque estava só,

porque estava só.

E continuou dias e dias,

louca, frenética,



no enorme comboio vazio, onde não vai ninguém, que ninguém conduz.... E essa é a terrível,

a estúpida força sem pupilas,

que ainda faz que essa mulher

avance, avance no passeio,

gastando a sola dos velhos sapatorros,

gastando as lajes,

entre valas abertas de um e outro lado,

entre montões de terra,

de dois metros de comprido,

com o tamanho exacto

da nossa ternura de corpos humanos.

Ah, por isso essa mulher avança (na mão, como o atributo de uma semideusa, [a almotolia), abrindo com amor o ar, abrindo-o com excelsa delicadeza,

como se caminhasse sulcando um trigal onde o grão está a formar-se,

sim, como se fosse sulcando um mar de cruzes, ou um bosque de cruzes,

[ou uma nebulosa de cruzes de cruzes próximas,

de cruzes distantes.

Ela,neste crepúsculo cada vez mais sombrio,

inclina-se,

vai curvada como um ponto de interrogação,

com a espinha dorsal arqueada

sobre o solo.

Espreita pelo caixilho do seu próprio corpo de madeira, como se espreitasse pela janela

de um comboio,

ao ver afastar-se a estação anónima

em que devia ter ficado?

Será que lhe pesam, que se suspendem do seu cérebro suas lembranças de terra em putrefacção,

e se lhe esticam tensos cabos invisíveis

desde suas sepulturas dispersas?

Ou como essas amendoeiras

que no verão estiveram carregadas de demasiados frutos, conserva ainda no inverno o tenro viço,



guarda ainda o doce ramo tombado

pela carga e pela companhia,

em seus tristes ramos nus, onde já nem pousam os pássaros?



Dámaso Alonso

Tenho a dizer...

*Foto por António Amen


Tenho a dizer que quero apanhar um comboio para um lugar onde não haja Páscoa. Detesto a ideia da morte (celebração da Morte... bah!), detesto amêndoas e detesto ovos de chocolate. Quero mesmo é viajar, se para outra dimensão tanto melhor. Quero um comboio com muitas carruagens e vazio. Todo só para mim. Quero um lugar à janela, por onde possa olhar o verde das árvores e o azul do céu; por onde possa olhar as estrelas e o prateado da lua. Tenho a dizer! Está dito!

quinta-feira, 13 de março de 2008


*Foto gentilmente enviada por Leonor Branco
E se te oferecessem um bilhete de comboio para Macau...
... o que fazias?

Matei-te!

*Foto por Álvaro Duarte






Hoje quis matar-te. Agarrei em ti à força. Parte de ti bateu-me na cara. Merda para esta ventania que me impede de caminhar! Afinal tinha mais força do que pensava e consegui arrastar-te e trazer-te comigo. Aqui do alto vê-se a linha bem lá em baixo. Vou deixar-te cair quando o comboio passar. Vai estraçalhar-te, esborrachar-te, partir-te em pedaços, matar-te e fazer-te desaparecer da minha vida para sempre. Ai vem ele! Com o barulho do comboio não consegui ouvir-te agonizar mas quando olhei já havias desaparecido para sempre... meu ODIOSO BAÚ DE MEMÓRIAS!

quarta-feira, 12 de março de 2008


*Foto por Miguel Lopes



Gostava de poder passar com um comboio por cima de algumas memórias...

terça-feira, 11 de março de 2008

Where to...?


*Foto gentilmente enviada por Leonor Branco
Vou apanhar o comboio...
Para onde?
Coimbra?
Aveiro?
Porto?
Coimbra...
Figueira da Foz.
Fugir.
Dor.
Pequenina.
Revolta.
Mágoa.
Ódio!
Dor.
Angústia.
Fugir...
Desaparecer.
Pequenina.
Fugir... Apanhar o Comboio.
Mas para onde?

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Quase QUASE Quase



*Foto por Loungerie (Flickr)




Se eu hoje traduzir 17 páginas...







... oferecem-me um bilhete de comboio?????







Pode ser para Bora Bora... eu depois faço o transfer de barco.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Viagens da Mente, ou Da Loucura


* Foto: autor desconhecido





Viajar. Quero viajar. Fugir.

"A Estação do Rossio reabre amanhã."

Rossio... Que bonito... Queria viajar. Queria apanhar o comboio. Rumar a Sintra outra vez. Quero verde. Estou farta destas quatro paredes... Branco. Paredes. Vazio. Prisão. Escuro. Silêncio. Doí-me a cabeça. Estou mal disposta. Cansada.

"Concerto de Maria João e Mário Laginha"

Música. Quero fugir. Viajar. Parar. Estou mal disposta. Cansada. Quero parar. Descansar. Dormir. Sair. Fugir. Viajar. Apanhar o comboio.

"Não se esqueça que o prazo termina dia 20"

Paredes. Paredes. Paredes. Oprimida. Angustiada. Sufocada. Exausta. Revoltada. Fugir. Apanhar o comboio.

"the garden from the Calouste Gulbenkian Foundation provide the Lisbon citizens a meeting with themselves (...) ; ...shelter and ... openness ... of the gardens at the cloisters of Alcobaça or of the Jerónimos...?!; the space of opening in chaos, at the lawn of Seteais...?!; and those, at the same place, that throw us over the horizon, starting a conversation with the infinite...?!;"

Jardins. Jardins. Jardins. QUATRO PAREDES E AS TREVAS ali fora, à janela... Jardins! Quero apanhar o comboio, sentar-me à janela, olhar os campos por aí fora e ver os nossos JARDINS!

"aquele em que o Objecto se subjectiva sem deixar nenhum resíduo de morta coisalidade, enquanto o Sujeito se reconhece, por seu turno no Objecto e nele se compenetra, constituindo-se como espírito inteiramente objectivado na presença sensível do Objecto."

Que estás tu a dizer, pá?! Jardins... Quero apanhar o comboio... 4 paredes... dói-me a cabeça... cansada... tenho de trabalhar...

sábado, 2 de fevereiro de 2008

A BUSCA... Parte II




Num repente... e sem que nada o fizesse prever... aquele homem voltou a entrar na carruagem numero 4 gritando e esbracejando mais que nunca, mas desta vez sendo seguido por diversos revisores e outros elementos do Staff da companhia... a calmaria deu de novo lugar ao tumulto... todos os passageiros comentavam agora em viva voz o que se passava e se questionavam mutuamente. Já havia quem sugerisse que apanhassem o homem e o retirassem dali... que chamassem a policia, os bombeiros, alguém...
A agitação era geral... já havia um amontoado de pessoas na plataforma que se digladiavam para chegarem a um lugar mais próximo de onde pudessem assistir à acção mais de perto...

AH AH!! ACHEI-TE!! EU SABIA... PENSAVAS QUE ME ESCAPAVAS NÃO ERA?! – Ouviu-se ao fundo, na divisória entre as carruagens... e o “suspense” tomou conta de todos...

To be continued...

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

A BUSCA... Parte I


Foto por : vaZectomia


Entrou notoriamente enraivecido no comboio... olhou em volta como quem faz um SCAN ao mais ínfimo detalhe a tudo e a todos... gritou algo que ninguém pareceu entender... e continuou a sua busca... passou a pente fino toda a carruagem olhando para todos os passageiros com um ar aterrador. Os passageiros esses, agarrados aos seus lugares... apenas olhavam por cima dos encostos à sua frente... num misto entre o esconder-se e o de tentar perceber o que se estava a passar... quem era aquele homem?! O que procurava?! E porque olhava para todos como se fossem os maiores suspeitos de algo que ninguém sabia o quê?!

Voltou a gritar!! – ONDE ESTÁS??? – desta vez perfeitamente audível por todos... e assim continuou... gritando, murmurando e explorando cada centímetro das carruagens daquele comboio... – Pensas que me escapas, é?! Não... Não escapas!! Vou encontrar-te!! E vais ver o que te vai acontecer!! – continuava a gritar à medida que continuava a sua busca sôfrega e agitadora...

Deve ser maluquinho... – sussurravam duas velhotas ao fundo da carruagem...

De repente... fez-se um silencio sepulcral... uma acalmia repentina tomou conta do comboio... como se aquele homem se tivesse evaporado... os passageiros continuavam a olhar uns para os outros e pelas janelas na tentativa de saber o que se passava... alguns, mais curiosos, levantavam-se e caminhavam até à porta, espreitando lá para fora... mas NADA... voltavam aos seus lugares de caras interrogativas e sem nada para contar...

Quem seria aquele homem e quem procurava?! Era a dúvida que acercava o pensamento de todos...

To be continued...

domingo, 27 de janeiro de 2008

Fugas


*Foto por Expresso do Oriente


Levantara-se às 4h da manhã para apanhar o comboio que a levaria ao aeroporto. Ia regressar a casa naquela madrugada mas não lhe apetecia. O facto de estarmos ausentes de um local (e desse país em geral) traz sempre uma agradável sensação de fuga e consequente alívio. Apesar de todos os problemas estarem sempre presentes na sua mente, a ecoarem frases que a pouco e pouco lhe iam ferindo sentidos, ali, sentia, no branco da neve, a paz que buscava e o vazio; não um vazio que nos traz um sentimento de impotência e de falta de algo, mas um vazio que nos preenche de nada e isso é tudo o que nestas situações buscamos: o nada. Ficarmos cheios de nada quando andamos tão vazios de tudo. Julgara que se ia sentir cansada e sonolenta mas ao chegar à estação sentia-se cheia de energia; contudo, com o peso do mundo às costas. Ao olhar os comboios que chegavam e logo partiam, sentiu cada vez mais vontade de ficar e prolongar aquela sensação de fuga. Era agradável ser uma desconhecida, fazer o que queria. Era agradável a ilusão de que todos os problemas e interrogações tinham ficado em Portugal. Era agradável fingir que não tinha mais inseguranças. Era agradável começar tudo do princípio, renascer. Era isso que ela queria: renascer! Renascer com todos os ensinamentos do passado. Mas começar uma vida nova. Olhou-o e sentiu ternura, a mesma ternura, o mesmo amor que sempre sentira por ele. Não o mesmo... os seus sentimentos eram cada vez mais fortes, intensificavam-se a cada dia que passava, apesar de conseguir controlá-los melhor (ou fingir e iludir-se disso). Já não gritava de cada vez que descobria uma traição ou uma mentira. Já não passava dias e noites a chorar de cada vez que ele a tratava com desprezo. Mas amava-o cada vez mais. Valorizava cada vez mais momentos como aqueles que vivera nos últimos 5 dias, estando com ele a cada minuto, sentindo gestos de ternura cuja frequência naqueles dias era tão rara nos anteriores. Sem se enganar, porém. Sabia bem o que lhe ia na mente. Percebia todos os seus gestos, cada traço do seu comportamento. Nunca se iludira. Gostava, às vezes, de não pensar na verdade – isso, sim. Ele estava tão entranhado nela que não sabia como viver sem ele. A agitação em seu redor acordou-a destes pensamentos. Os passageiros agarravam as suas malas de viagem e aproximavam-se da beira da plataforma. Olhou para trás, para a outra linha. Olhou-o. Aproximou o seu rosto e beijou-o. Docemente. Muito docemente. Olhou-o. Sorriu. O comboio parou à frente deles. Agarrou na mala. Caminhou. Dentro do comboio, ele virou-se para trás à medida que as portas se fechavam. Do lado de lá, na outra linha, ficou a vê-la entrar num outro comboio, que a levaria de regresso à cidade...

sábado, 22 de dezembro de 2007

A equipa do A ver passar comboios...

deseja a todos os seus passageiros

UM FELIZ NATAL

E

UM BOM ANO 2008

BOAS VIAGENS!...

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Em Busca da Felicidade (Parte V)


Foto por: George Cereça


Seguiram de mãos dadas pelo passeio a caminha da felicidade ambicionada... será que iriam conseguir?! Será que as suas personalidades iriam conseguir unir-se?! Ninguém sabe... nem eles... mas, pelo menos naqueles curtos momentos que estavam a viver a sua FELICIDADE era ETERNA... o futuro... mais tarde se verá...


FIM

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Em Busca da Felicidade (Parte IV)


Foto por: rudolfo lopes


Apenas algumas horas passaram... mas, para ambos, pareceram largos meses... o sol do final de dia iluminava a face daquele homem que ali... sentado... permanecia, olhando a sua musa quase sem pestanejar...
No seu colo permanecia um jornal de aspecto político ou económico que trazia na fila debaixo do braço... que ali jazia... imóvel... exactamente como fora deixado quando o seu dono ocupou aquele lugar... nem sequer os olhos por ele passou... estava... hipnotizado... catatónico... apenas as funções vitais pareciam funcionar...

Hora de saída... mais apressadamente que nunca ela arrumou todas as suas coisas... a sua mesa ficou de uma forma que quase parecia que ia de ferias ou pelo menos, ficar ausente do emprego por vários dias... olhou para a porta lateral e ele rapidamente seguiu o seu olhar percebendo de imediato o que ela lhe estava a querer dizer...
Levantou-se e saiu num flash e esperou a sua saída em frente à porta... ela saiu... olhando para o chão com um aspecto tímido e inseguro... lentamente foi levantando o olhar até estar olhos-nos-olhos com aquele homem... lentamente ele alcançou a sua mão gelada e tremula e a acariciou levemente... entrelaçaram os dedos dando as mãos... e iniciaram uma caminhada pelo passeio...


(To be or not to be... continued)

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Em busca da Felicidade (Parte III)


Foto por: Paulutchy


Não conseguia falar... nem uma palavra lhe saia da garganta colada de emoção... soluçava apenas... num misto de riso e choro... felicidade e ansiedade... alegria e insegurança... e agora?! Pensava para si mesma...

Aguardando mais alguns segundos em frente ao vidro que os separava, ele ali aguardava... não sabia bem o que esperar ou o que estava à espera... mas não parecia querer mover-se um milímetro que fosse... MEXEU-SE... voltou-se quase 180º como quem se vai afastar ou ir embora... sendo esse o único gesto que fez descolar a garganta daquela vendedora de bilhetes – Onde vai?! – disse ela assustada. – Vai-se embora?!

Não!! – disse esboçando um sorriso – vou ficar aqui... daqui não saio sem uma resposta sua... sentando-se, ao fundo da sala... no ultimo banco... o mais longe da bilheteira mas estrategicamente de FRENTE para ela... e ali ficou... aguardando... pacientemente...


(To be Continued)

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Viagens (Pensamento)






A vida de cada um de nós é feita de viagens. Algumas planeadas; outras sonhadas; ouras inesperadas ou imprevistas; viagens ao acaso, sem destino; outras de trajecto definido; e, no meio destas, outras tantas que nós perdemos. Assim é a vida de cada um. Viagens solitárias, a dois ou em grupo. Viagens sós que gostaríamos de ter partilhado com outro alguém e outras em que acompanhados gostaríamos de ter estado sozinhos. E, no meio deste turbilhão de pensamentos, por vezes, olhamos e o comboio que queríamos ou deveríamos ter apanhado já partiu e já é tarde de mais para voltar. Aguarda-nos a incerteza do futuro com a aprendizagem permitida pelas recordações do passado.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Em Busca da Felicidade (Parte II)


Foto por: Filipe Monteiro


Olhou para ela de uma forma diferente, profunda… como se quisesse entrar dentro da sua mente… penetrar nos seus pensamentos... e assim ficaram por momentos que pareceram horas... olhando um para o outro... olhos nos olhos... espelhando e reflectindo as suas almas...

Acordando deste estado de hipnose ele disse - Peço desculpa menina, não me fiz entender e acabei por estar a fazê-la perder o seu tempo... a verdade é que não conheço nem pretendo ir para nenhuma localidade com esse nome... mas é verdade que o que pretendo de si é um “bilhete virtual” para a felicidade... há meses que por aqui passo e compro bilhetes para locais onde nunca fui, reservo lugares em comboios onde nunca entrei, ocupo cadeiras onde nunca sequer fiz tensão de me sentar... por um motivo apenas... para a ver... para falar consigo... para a poder olhar de mais perto... essa é a verdade... estou apaixonado por si... penso em si mais vezes por dia do que o numero de bilhetes que vende... é isso que quero de si hoje... o único bilhete verdadeiro... aquele que quero na realidade usar e guardar comigo... pois não passa de validade...

Um silêncio ainda maior tomou conta da estação... as pessoas calaram... gelaram... parecia que o tempo havia parado e até os comboios tinham deixado de passar... um raio de sol entrou pela janela e iluminou o rosto da menina da bilheteira reflectindo-se com maior intensidade numa gotinha... numa pequenina lágrima de emoção que lhe escorria pela face... os seus olhos brilhavam como nunca antes haviam brilhado parecendo duas estrelas...

O silêncio quebrou-se por um aplauso tímido ao fundo da fila que, qual onda que se forma no mar e se estende e ganha força até rebentar na praia, se propagou e contagiou todos os presentes tornando-se num aplauso sonoro e ruidoso que agora se fazia ouvir. Á medida que o aplauso aumentava de volume também as lágrimas de emoção aumentavam o seu ritmo de formação e queda no rosto da menina da bilheteira que chorava agora copiosamente...

(To be continued)

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

Em Busca da Felicidade (Parte I)


Foto por: Alfredo Abano


Na fila da bilheteira um homem bem vestido e com aspecto de executivo de sucesso, daqueles que nem sequer andam de comboio, aguardava pacientemente a sua vez para comprar bilhete.
A fila avançava lentamente e após alguns minutos o mesmo homem ficou cara-a-cara com a menina da bilheteira.


Olá Bom dia! Queria um bilhete para a felicidade! – Disse num tom perfeitamente consentâneo com o seu aspecto. Desculpe! – Respondeu a menina do outro lado – disse que queria um bilhete para onde? Para a felicidade – respondeu de pronto o homem.

Fez-se um silêncio sepulcral na bilheteira, nem as crianças que até segundos antes brincavam ruidosamente ao fundo da estação pareciam conseguir soltar um som que fosse...
A menina após alguns segundos de inércia debruçou-se sobre o ecrã do computador que tinha a frente e começou a percorre-lo de ponta a ponta numa busca quase frenética... as pessoas que aguardavam na fila começavam a mostrar alguma impaciência e espreitavam por cima dos ombros uns dos outros tentando perceber o que se passava e o porquê da fila não avançar...

Mais uma tentativa... de busca... mas em vão... levantou-se a abandonou por momentos o seu lugar perante o quase desespero dos muitos que aguardavam na fila de espera... dirigiu-se ao gabinete do chefe da estação... após alguns segundos voltou com o mesmo olhar triste com que tinha entrado... dirigiu-se ao cliente e disse: Olhe, o senhor desculpe... mas é que eu não consigo encontrar nenhuma localidade com o nome que me indicou...

Ele... apenas sorriu...




(To be continued)

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Pensamentos em Surdina (ou um post do meu tamanho: pequenino)

*Foto por Cláudio Márcio Lopes



Novamente a vida os juntou, num outro comboio, a uma hora diferente do habitual.
A cidade acordava lentamente para a agitação e o corropio natural de uma semana que ainda vai a meio. O sol espreitava pela manhã mas, ainda ensonado, não abraçava os corpos de quem na rua passava.
Numa ponta da carruagem ela tremia e perguntava-se por que raio achava que ia ter calor e não houvera vestido um casaco, enquanto o seu olhar ia perscrutando os lugares ao seu redor e olhava com ansiedade para o relógio e para o telemóvel. Estava atrasado... porque não chegava nem dizia nada? Finalmente, viu-o ao fundo da carruagem. Expectante. Ansioso também. “Tonto. Enganaste-te. Era no 7 e não no 17.”
- Já ali estava há 5 minutos à tua espera...
- Ali? Não te vi...
- Pois eu reparei... tentei fazer-te sinal mas tu nada.
Olharam-se. Sorriram-se e repente ela sentiu-se quente e aconchegada. “Como a vida brinca connosco... Como a vida brinca...”

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Uma Viagem... Uma Vida (Parte I)

Foto por: Flávio Henrique Vieira


Entraram apressados e nervosos... o comboio já estava em andamento e a ganhar velocidade... tinham sido apanhados de surpresa com aquela viagem apesar do bilhete há muito comprado... e tantas vezes verificado e registado para não esquecer a data...

Os seus corações cavalgavam à velocidade da luz e pareciam a todo o momento querer sair do peito... tinham vivido momentos de alguma apreensão e... até algum pânico... mas agora esses sentimentos já estavam ultrapassados... ou melhor... permaneciam... mas algo transformados... digamos que os sentimentos eram agora como setas que apontavam para outras direcções...

Inicio de viagem conturbado... difícil... mas tudo o que os esperava não se adivinhava mais fácil, bem pelo contrário... por isso que os sentimentos eram confusos... ALEGRIA, FELICIDADE por um lado... e APREENSÃO e INSEGURANÇA por outro digladiavam-se a cada minuto... todos os minutos... das 24 horas do dia...

Por essa altura... essa era outra coisa que parecia ter mudado... o dia não parecia ter mais as 24 horas de sempre... parecia... no mínimo... ter mais umas 10 ou mais... mas todas da parte diurna... a noite parecia ter desaparecido... bem como o direito ao descanso...

Viviam momentos difíceis... o seu lugar neste comboio em andamento parecia ser o último... ao fundo... na última de todas as carruagens... mas o mais difícil era circular dentro dele de ponta a ponta por uma linha férrea sinuosa, íngreme e que não dava descanso aos passageiros...

Apesar de tudo isso... estavam felizes... cada momento daquela viagem era único... era especial... e apesar da sua dureza, com toda a certeza esta era uma viagem da qual iriam guardar todos os pormenores... para mais tarde... RECORDAR... com SAUDADE...