Assim caiu, assim ficou... embalado pelos balanços da viagem adormeceu profundamente...
*Foto por "kiliturru"

Enquanto falavam ele foi-lhe despertando a atenção. Aquele era o tipo de homem que mexia com ela. Ficou com vontade de ser como as outras mulheres que lhe tinham invadido a casa, que não pensavam nas consequências, não se punham com moralismos, não pensavam, ponto. Era tão mais fácil. E ele atraía-a.
Entretanto, o telemóvel dele tocou. Atendeu e, vendo-o distraído, ela aproveitou para o olhar melhor, enquanto fazia sinal ao empregado para lhe servir um último vodka, coisa a que este prontamente se dispôs. O telefonema foi curto e de poucas palavras.
- Parece que hoje já não tenho mais trabalho. Talvez possamos conversar e explica-me melhor o que se passa consigo. E não devia continuar a beber ou não vai dar pela sua estação quando chegar a hora de ir para casa.
- É o último e não tenho casa. Já não vou para lado nenhum hoje e não quero falar de coisas que já não interessam. No entanto, agradar-me-ia a sua companhia. O meu nome é Beatriz e até há pouco tempo era relações públicas.
- O meu nome é C. e sou vendedor. Não sou destas bandas. Vim aqui em negócios hoje mas parece que perdi a noite. Ainda tenho de fazer a viagem de volta a casa. Sou da Figueira da Foz. E a Beatriz, para onde ia?
- Podemos tratar-nos por tu, feitas as apresentações? Bem, C., eu não sou de cá. Morava cá mas as coisas não correram bem e agora não sei muito bem para onde ir. Por isso não fui logo para a bilheteira. A Figueira da Foz parece-me bem... Acho que estou a precisar de ver e ouvir o mar, sentir a maresia no rosto. Ajuda-me sempre a pensar. Davas-me uma boleia?
- Com toda a certeza. Acho que nos ajudaremos um ao outro. Eu não tenho de fazer o caminho de volta sozinho e a Beatriz... e – tu - tens tempo para te recompor.
“Beatriz” sorriu pela primeira vez naquela noite. Não só por C. mas também pelos vodkas todos que já tinha bebido. Não queria saber muito de C. Naquela noite simplesmente queria esquecer-se de quem era e não pensar. Agir consoante os impulsos, os desejos. Naquele momento desejava-o.
Pegaram nas coisas e saíram. Ela dava pequenos passos, tentando com esforço não cambalear. O empregado sorria maliciosamente.










Foto por daniel camacho
Era já noite cerrada... deitado no seu lugar naquela carruagem fria tentava enroscar-se o máximo que podia a um pequeno casaco... único agasalho que possuía. Era verão, pelo menos era o que o calendário dizia, mas o frio que se fazia sentir parecia querer fazer acreditar a todos que estávamos no pico do inverno... enroscado, meio tapado... ali permanecia ele, tentando aquecer-se há longas horas. A cada vez que a porta se abria e dava lugar a mais uma entrada ou saída era como se a fogueira que tanto se tinha esforçado por acender se apagasse com uma bola de gelo, caída dos ramos de uma qualquer árvore próxima.
Era uma noite fria, muito fria... mas luminosa... uma lua gigante brilhava lá fora e os seus raios entravam abruptamente pelas vidraças cada vez que no trajecto o arvoredo se esquivava... mas nem essa luz o aquecia... era branca... branca com a neve... num tom quase azulado... fluorescente... e também ele gélido.
Foto de Claudio Marcio Lopes
Foto por: Luís Filipe Montanha Santos Teixeira

Foto por: José BrancoA Idade... mas afinal que importância tem a IDADE... será que vale só por si... pelo número, pela quantidade de idade que se possui, assim como quem conta dinheiro e quanto mais tiver, melhor! Ou será que contar idade é apenas contar moedas e notas como se todas valessem o mesmo?!
Foi este o pensamento que o levou ao interior do comboio, onde se sentou... as senhoras essas entraram à sua frente e ficaram com os melhores lugares (a idade assim o permite) mas desta vez estavam ainda mais próximas e a conversa parecia não ter fim... o comboio arrancou de forma um pouco violenta dando um valente solavanco que terminou com a conversa por momentos... daí até uma delas lançar a sua perspicácia do ocorrido ao tema de conversa foi uma fracção de segundos: - Vês... eu bem te digo, de certeza que o maquinista é novo... vê-se logo... viste como o comboio arrancou à bruta sem ter em conta ninguém – disse uma delas. Atrás delas estava sentado um senhor de cabelo grisalho e de pele enrugada, nitidamente mais velho que a espaços esboçava sorrisos como se estivesse a divertir-se com a conversa das duas.
Entrou o revisor, pediu os bilhetes, e logo uma delas o questionou: - Olhe, desculpe, o maquinista hoje é novo não é?! - Por acaso não – respondeu de pronto - é até um dos mais EXPERIENTES da casa, tem imensos anos de serviço na empresa... A resposta obtida fez parar a conversa de imediato e o revisor seguiu o seu caminho por entre as carruagens.
Foto por: Vasco Jorge