in O Idiota, de Fiódor Dostoiévski (1868)
sábado, 28 de julho de 2007
Caminhos-de-Ferro da Literatura
in O Idiota, de Fiódor Dostoiévski (1868)
terça-feira, 24 de julho de 2007
Hoje não há comboios

Parado na plataforma da estação olhava em volta como quem busca e não acha... e olhando de 10 em 10 segundos para o relógio lá continuava... de malas na mão, como se estivesse preparado para entrar no comboio a qualquer segundo... só que... não havia qualquer comboio... as linhas estavam desertas... imóveis... isentas de quaisquer vibrações... e não se ouvia qualquer som que anunciasse uma qualquer chegada...
Era um dia estranho... quente... abafado... e o suor escorria-lhe pela face em pequenas gotas que se formavam na sua testa e que desaguavam no seu queixo onde se lançavam em queda-livre até ao chão ardente da plataforma...
Um brisa tórrida fazia-se sentir de quando em vez... mas apenas para nos lembrar que o mundo não estava parado... exausto largou as malas... e voltou a olhar o relógio... olhou novamente em volta... ninguém... nem vivalma no horizonte mais longínquo até a vista pode alcançar... A pressa e a ansiedade que demonstrava tinham já dado lugar ao desespero... sentou-se em cima das malas... baixou a cabeça e olhou para o chão... num momento de loucura levantou-se e gritou: - Então, mas hoje não há comboios?! – mas a única resposta que teve foi a do seu próprio eco...
segunda-feira, 23 de julho de 2007
A ver passar comboios...
sexta-feira, 20 de julho de 2007
The Brake to Reality
Com o passar do tempo estranhou o silencio que tomara conta daquela carruagem... não se ouvia um único ruído... que estranho – pensou... até vai quase cheio... mas logo retomou a sua contagem de postes... de repente uma súbita travagem... o comboio balançou bruscamente e sentiu-se um comprimir entre carruagem como se de um acordeão se tratasse... finalmente parou... e o pânico instalou-se e tomou conta de todos os passageiros... ou de quase todos... pois, estranhamente... ele ali continuava no seu lugar... calmo e sereno... quase sem dar pelo tumulto que se havia instalado... olhou em volta e viu pessoas a correr por entre os bancos em direcção à frente do comboio.... pareciam gritar... e falar alto... mas ele não os ouvia... era como se tivesse ficado surdo de repente... via o movimento... sentia a atmosfera pesada... mas não sabia o que se passava... ao seu lado passou uma senhora notoriamente abalada que se dirigia em sentido contrário à maioria dos passageiros... já deveria vir na volta... mas o que será que tinha acontecido para a senhora ter aquele olhar pesaroso e abalado... tentou interpela-la... - a senhora desculpe... o que é que passou? – disse num tom calmo e educado... mas não obteve resposta... parecia que a senhora nem o tinha ouvido... provavelmente ia nos seus pensamentos e não reparou que ele se estava a dirigir a ela...
domingo, 15 de julho de 2007
Escolhas

quinta-feira, 12 de julho de 2007
A Perseguição

Estoirado... derreado... parou... caiu... com a face encostada às pedras frias da calçada sentiu uma gota de suor deslizar desde a sua testa passando junto ao seu olho entreaberto e cair, escorrendo pelo nariz... quase conseguiu ouvir essa gota a cair no chão... não tinha mais forças... não conseguia mover um único músculo... tinha atingido o seu limite físico... era agora que ia ser apanhado... mas nem os olhos conseguia manter abertos para ver quem o perseguia... vislumbrou apenas uma sombra... um vulto... a aproximar-se lenta e vagarosamente... estendendo-lhe um braço... tocou-lhe... ACORDOU!! NUM PULO!! Respiração bloqueada pelo susto... - Bom dia... são horas de acordar! Já estás levantado? – ouviu... olhou em volta ainda em apneia... e à medida que foi conseguindo finalmente respirar percebeu que estava no seu quarto... ensopado em suor... foi tudo um pesadelo - pensou... eram 7 da manhã e estava atrasado para apanhar o comboio...
segunda-feira, 2 de julho de 2007
Strawberry Gum

Desceu vertiginosamente as escadas do prédio em direcção à rua... saiu porta fora e atravessou a estrada sem sequer olhar... por sorte ou por alguma conjuntura astrológica favorável não vinha a passar nenhum carro... dirigiu-se para a cabina telefónica mais próxima, ou pelo menos a mais próxima que conhecia, a da estação... meteu a mão ao bolso em busca de moedas e... o telefone... que estupidez!! Que idiota que eu sou!! – pensou em voz alta... como não pensei logo que estava no bolso... como não o senti enquanto procurava... número privado... que M*****, detesto números privados... como vou saber quem me ligou assim... ligo para o Sr. Privado?!? – disse em total desespero... sentou-se nos degraus de uma entrada de um prédio e agarrado ao telefone pensou – ao menos já sei onde está... se voltarem a ligar já posso atender... mas, e se não voltarem a ligar?! O melhor é ir para casa...
Levantou-se e sentiu-se preso... preso ao degrau onde se sentara... investiu mais uma vez na tentativa de se levantar... conseguiu... olhou para o degrau... NADA!! Como pode ser?? – pensou... que raio se passa aqui?! Torceu o tronco na tentativa de ver o que se passava... e nas suas calças encontrou... uma pastilha elástica... pelo cheiro... era morango... o seu aroma favorito...
domingo, 24 de junho de 2007
"Apanhar o Comboio": encontros
- Mas?? Que se passou? – interrompeu-a Ana sem conseguir controlar a sua ansiedade.
- Mas ele não chegou a aparecer. Sabes, até me ri da minha estupidez. Ficar horas num restaurante à espera de um desconhecido. Não era isso que eu tinha programado e foi exactamente o que acabei por fazer. Horas à espera dele.
- Mas ele não te disse nada? Não explicou porque não apareceu?
- Como? Eu disse-lhe que me chamava Beatriz porque não queria que ele soubesse nada de mim, para que pudesse sair da vida dele da mesma forma que entrei e ele a mesma coisa! Nem sequer números de telefone trocámos! Eu estava, realmente, em vantagem! Sabia onde ele morava. Mas, como é óbvio, não lhe fui bater à porta! Não, nunca mais o vi... em vez dele apareceu outra pessoa.
Manuel acordou de manhã, na marginal, com os primeiros raios de sol e o barulho de algumas pessoas que corriam ao longo da marginal. Havia adormecido no carro. E se ela tinha saído sem ele dar por isso? Não a podia perder de vista! Resolveu esperar dentro do carro. Ainda era muito cedo e o homem com quem a vira deveria estar ainda lá dentro. O Ibiza preto continuava estacionado à porta do prédio onde haviam entrado os dois na noite anterior. Esperou pacientemente durante algumas horas até que o viu sair. Pensou em segui-lo, mas depois pensou que Rafaela ainda poderia estar lá dentro e não a poderia deixar escapar. Então, resolveu permanecer no carro. Poucos minutos depois, o homem moreno passava com uma rosa branca na mão e um saco de pastelaria. Caramba! Ele ia dar-lhe a volta! Rosas brancas... as suas flores preferidas juntamente com as tulipas brancas. Mas se ele levava uma rosa era porque ela lá havia passado a noite e ainda lá estava. Esperou com impaciência. Quase uma hora depois voltou a ver o homem sair de casa. Sozinho. Pensou em tentar entrar no prédio e surpreendê-la mas não tinha conseguido perceber em que apartamento eles estavam e era demasiado arriscado. Não queria fazer nenhum escândalo e o homem com quem ela estava era nitidamente mais forte do que ele. Acabou por continuar a sua espera, contrariado. O homem regressou passada meia hora. Passou uma hora. Duas horas. Três horas. E nada da Rafaela. Os dois estavam dentro de casa e não havia meio de saírem. Manuel encolerizava-se com o que ia imaginando que Rafaela pudesse estar a fazer com aquele homem. Ela era só dele! Nenhum outro homem poderia tocá-la! Entretanto, a meio destes seus pensamentos, viu a porta do prédio abrir-se e Rafaela e C. saírem de mãos dadas. Ela parecia feliz, de sorriso aberto, trocando suaves carícias com aquele homem de ar latino. Entraram no carro e Manuel voltou a segui-los, esboçando ideias de vingança contra aquele sujeito, aquele cretino que havia ousado tocá-la.
sexta-feira, 22 de junho de 2007
"Apanhar o Comboio": a partida
- Querida! Querida!
Nada... ao contrário do que acontecia todos os dias. Apenas o silêncio. O silêncio que tanto medo lhe causava.
- Queriiiiiida! Queriiiiiida!
Ainda nada.
- Rafaela! Oh, Rafaela! Rafaela! Querida!
Insistiu um bom bocado, como sempre fazia.
Passados cinco minutos sem resposta, levantou-se contrariado e foi buscar um pão à cozinha. Depois, percorreu todas as divisões da casa em busca da sua companheira. Nada da Rafaela. Talvez tivesse ido à loja buscar alguma coisa para o jantar. Tinha fome. Eram quase horas de comer. Voltou à cozinha para espreitar o que Rafaela tinha preparado e estranhou não ver nada no fogão, nenhuma comida feita ou semi-feita. Não era da Rafaela não ter ainda o jantar a preparar. Ela sabia que ele gostava de jantar cedo e fazia sempre tudo para lhe agradar. Na verdade, saiu-lhe a sorte grande quando conheceu a Rafaela. De todas era aquela com que mais ganhava. Ocupou-se dos seus filhos e quase quis ficar também com a guarda da neta. Aliás, só não o fez porque ele não havia revelado grande entusiasmo nisso e ela ficou apreensiva em relação a criar uma criança sozinha. Detestava as lides domésticas mas fazia-lhe tudo em casa e... era uma mina de ouro! Quando se conheceram, ele passava por sérias dificuldades, com os negócios a correrem mal, e foi ela que, primeiro, o sustentou e, depois, tomou as rédeas de tudo e recuperou a empresa. Se não fosse ela, hoje não teria nada. E se ela se fosse embora estava ciente de que perderia muitos clientes. Para juntar a tudo isto, era um excelente troféu para um quarentão exibir, passeando-se com uma miúda que tinha metade da sua idade. O telemóvel tocou, interrompendo-lhe o pensamento. Era a Elisabete. Outra gaja boa como o milho. Quarentona também, mas muito bem conservada. Loura. Ex-modelo. Fácil de levar para a cama como quase todas. Conhecia bem o tipo. Era casada com um empresário que lhe dava tudo menos atenção. Coitada. Precisava de um bom tratamento. E ele sabia e podia dar-lho.
- Elisabete, querida, adivinhaste os meus pensamentos. Cheguei agora a casa e ia ligar-te. Estou exausto. Tive um dia cinzento. A única coisa que me segurou foste tu, a tua lembrança. Pensar em ti dá-me tanta paz...
- O meu marido está a chegar. Tenho de desligar. Liga-me amanhã. Preciso de te ver novamente. – desligou.
Manuel levantou-se e foi até à varanda. Não havia meio de Rafaela chegar. Era estranho. Acendeu um cigarro. Sentiu um arrepio de frio. A noite estava a arrefecer e assustou-se com a ideia de ficar doente. Era um hipocondríaco. Acabou de fumar o seu cigarro dentro de casa e dirigiu-se ao quarto para ir buscar uma camisola de malha. Dirigiu-se ao roupeiro e, ao abri-lo, ficou estagnado. Toda a roupa de Rafaela tinha desaparecido. Correu até à salinha do fundo. A mala de viagem dela também já lá não estava. Rafaela tinha-o deixado! Sentiu-se mal. Começou a ficar com tonturas e sentiu o coração acelerado. Ninguém o deixava! Agarrou no telemóvel e pensou em ligar à irmã. Elas eram muito amigas. Demasiado até. Talvez Rafaela lhe tivesse dito alguma coisa. Quando ia para marcar os números, o telemóvel tocou. No visor apareceu o nome Sofia. “Oh, sorte!”, pensou. “O que quer esta agora?”
- Estou! – atendeu bruscamente.
- Senhor Rebelo Sousa, desculpe estar a ligar-lhe.
- Diga! – respondeu quase num grito.
- É que o Eng.º Tavares ligou a querer confirmar o almoço com a Rafaela, mas ela não atende o telemóvel. Eu vi-a junto à estação antes de ele ligar e era para confirmar se a viagem dela ao Porto foi antecipada.
- Junto à estação? Hã? Hum... Pois. Foi. Foi antecipada. – respondeu atrapalhado mas não querendo dar a perceber o que se passava. – Esse Eng.º é um cretino! Cancele! – e, sem mais, desligou-lhe o telefone.
Amaldiçoou-se e agarrou nas chaves do carro. Talvez não fosse demasiado tarde. Quando chegou à estação e se preparava para sair do carro à procura de Rafaela, viu-a sair do café, rindo-se. Ao lado dela vinha um homem moreno na casa dos trinta. Os dois entraram num Ibiza preto e arrancaram. Manuel apressou-se a ligar o carro e arrancou atrás deles.
Viagem Adiada

Passeou-se mais uma vez pela sala nos sapatos novos... ou que o foram, pois os quilómetros que já haviam levado nas últimas horas faziam-nos parecer já semi-novos apesar de terem sido comprados propositadamente para a viagem no dia anterior... queria parecer bem apresentado ao chegar... também tinha comprado roupa nova... um fato muitíssimo elegante e muito ao seu estilo, mas esse não se atrevera sequer a usar, estava estendido em cima da cama, pronto para ser envergado como um cartão de visita... pelo menos era assim que ele pensava... ou pelo menos sempre fora assim que fora induzido a pensar por todos... já a sua mãe dizia... “...veste-te sempre bem meu filho... sai sempre de casa como se fosse para o encontro mais importante da tua vida... nunca sabemos o que a vida nos reserva ao virar da esquina...”. Apesar de ela própria nunca se ter preocupado muito com as aparências, a sua eterna sapiência de mãe levava-lhe a dizer estas coisas desde sempre... e ele foi interiorizando aquilo... como um dogma da sua vida...
Se a sua mãe o visse a fazer aquela figura e com as mãos naquele estado... já não restavam unhas, peles e outros por roer... o nervosismo instalado já o fazia ter vontade de ir à casa de banho de 5 em 5 minutos... coisa que fazia... levando o telefone com ele... que ridículo! – pensava para si próprio...
Finalmente tocou... atendeu sem ouvir sequer o segundo momento sonoro do “ring ring” executivo que tinha como toque, como convém... nada dessas musicas modernas ou toques do Jamba que o pudessem fazer passar vergonha nalgum lugar onde o seu telefone pudesse tocar... mas não disse nada... só ouviu e acenou com a cabeça ao ritmo da informação que ouvia apesar de não ser uma video-chamada... do outro lado alguém desligou no momento em que ele se despedia com a cordialidade que lhe era reconhecida... devido a problemas de agenda o compromisso teria que ser adiado e, consequentemente, a viagem tinha que ser adiada...
quinta-feira, 21 de junho de 2007
"Apanhar o Comboio": o começo do fim
*Foto por Hugo Félix- Preciso de um duche. – disse “Beatriz” levantando-se da cama. – Vens? – perguntou-lhe em tom desafiador quando chegou à porta. C. não respondeu. Apenas sorriu e seguiu-a. No duche voltaram a amar-se.
- Tu... tu... Olha, por essa eu não esperava! Aquela da toalha caída no chão... Nem te reconheço! E... como é que ele foi?! Quer dizer... tu sabes! Como é que ele é?
Beatriz sorriu.
- Nem consigo definir. É... foi viciante. O C. é viciante. Um simples beijo com ele é uma explosão de prazer. O teu corpo tem espasmos de prazer! Apenas o facto de ele entrar em ti faz-te entrar em êxtase. Foi viciante... e inesquecível.
- Isso significa que não ficaram por aí? Continuaste a encontrar-te com ele? Carago! Isto de estarmos tanto tempo longe não dá com nada! Conta-me! Estou cada vez mais curiosa com o que aí vem. É que depois do que me contas eu já nem sei o que pensar ou o que esperar! Voltaram a encontrar-se? Não ficaste em casa dele outra vez, ficaste?
PERSPECTIVAS DE VIDA
Assim caiu, assim ficou... embalado pelos balanços da viagem adormeceu profundamente...
quarta-feira, 20 de junho de 2007
"Apanhar o Comboio": a primeira noite [revisto]
*Foto por "kiliturru"- Louca... Não estive louca ao viver com o Manuel? E alguma vez eu o conheci? Alguma vez eu pensei que ele se mostrasse o traste que mostrou? Alguma vez eu me imaginei a levar com uma versão decadente da família Adams? Louca estava nessa altura e precisei começar a sentir muita raiva dele, ao invés de pena de mim, para mudar a minha vida. E se mudei! Mas como te estava a contar... A noite correu de forma bem diferente daquela que estás a pensar.
C. fez um jantar simples e rápido, aproveitando algumas sobras que tinha no frigorífico. Jantaram, beberam mais um pouco e conversaram muito sobre tudo e sobre nada, sem entrar em grandes detalhes das suas vidas pessoais. Brincaram um com o outro e riram muito. “Beatriz” estava seduzida pelo bom humor dele e ele enfeitiçado pelo sorriso dos seus lábios carnudos e bem delineados. Entretanto, C. deixou “Beatriz” por não mais de dez minutos para arrumar a cozinha. “Beatriz” insistiu em ajudá-lo mas C. recusou, dizendo que não demorava muito e pedindo-lhe que se pusesse à vontade. Quando voltou à sala, encontrou-a a dormir tranquilamente no seu sofá negro. Olhou-a. Parecia exausta. Dirigiu-se ao armário da entrada e procurou pela última prenda de Natal da sua mãe. Ali estava ela. Tapou “Beatriz” cuidadosamente com a manta de malha escocesa e tentou não a acordar. Afagou-lhe o cabelo que lhe cobria o rosto em longos cachos dourados e deu-lhe um suave beijo nos lábios rosados. Apagou as luzes e foi para o seu quarto.
- Queres dizer que não aconteceu nada??? Uau! Saiu-te mesmo a sorte grande naquela noite!
- Sim. Talvez... Não, não aconteceu nada. Quando acordei no dia seguinte tive a certeza que não aconteceu nada porque para além das minhas bebedeiras nunca – e infelizmente – me provocarem amnésia, estava completamente vestida. Ele estava a tomar duche (conseguia ouvir a água a correr no chuveiro) e a mesa estava posta para o pequeno-almoço, com o detalhe de uma rosa branca a cobrir uma folha branca que me dizia para me servir à vontade. Eu sentei-me, servi-me de café e quando ele voltou perguntei-lhe se ele se importava que eu tomasse um duche e mudasse de roupa.
domingo, 17 de junho de 2007
"Apanhar o Comboio": Lusitânia Comboio Hotel

- Pois, sabes como eu sou impulsiva. Faço tudo por impulso, de cabeça quente. A maioria das vezes dou-me mal com isso e não consigo escapar aos tormentos da minha consciência no dia seguinte. – o comboio arrancou bruscamente e aos soluços e as raparigas tiveram de se agarrar aos ferros das camas onde estavam deitadas para não caírem.
Ao longo do caminho conversaram muito, o que ajudou “Beatriz” a não adormecer... Bem, isso e o facto de estar extremamente excitada. Não conhecia aquele homem de lado nenhum e isso tornava tudo muito mais apelativo. Afinal, convivera quase dois anos com um homem a quem conhecia melhor que a sua imagem reflectida no espelho, a quem sabia de cor as virtudes e os defeitos, sendo os últimos bem maiores em número e qualidade, e precisava desesperadamente de conviver com um estranho de quem não soubesse nada, de quem não tivesse tempo para conhecer o que quer que fosse, nem virtudes nem defeitos, por quem não tivesse oportunidade de se apaixonar nem de fantasiar, com quem estivesse apenas o tempo necessário. Entretanto, C. começara a falar-lhe da sua vida pessoal, o que a deixou irritada porque estava a fugir aos seus planos. Era um homem ambicioso, que almejava abrir uma filial da sua empresa e tornar-se assim gerente, deixando as vendas. Tinha sido promovido há pouco tempo para chefe do departamento de vendas, mas, no entanto, precisava de continuar a efectuar algumas visitas ao domicílio, pois o seu chefe admitia-lhe o jeito para convencer algumas donas de casa. C. sorriu matreiramente à medida que contava isto. Tinha-se separado há pouco tempo e tinha um filho pequeno, a única coisa a que realmente dava valor e de que sentia falta. Do bolso da camisa tirou uma foto da criança e mostrou-a a “Beatriz”. “Beatriz” enterneceu-se. A criança era realmente linda, com um sorriso traquina e cara redonda. Devolveu-lha de olhar triste, lembrando-se dos seus projectos de ser mãe. Esteve quase a adoptar uma criança com o Manuel, a neta que a filha dele abandonara, mas com todas as mulheres a entrarem e a saírem de casa, “Beatriz” resolveu pensar melhor e com muito custo abriu mão da criança e resolveu não se envolver mais. Tentou mudar de assunto, começou a falar de viagens e planos para o futuro. Falou-lhe de como todos os anos se encontrava com as suas amigas da faculdade e que no próximo ano fá-lo-iam em Madrid. Contou-lhe que se formara em Coimbra e que uma vez que ia para a Figueira, talvez aproveitasse e no dia seguinte fosse matar saudades da cidade. C. disse-lhe que o escritório onde trabalhava ficava em Coimbra e que, se ela quisesse, no dia seguinte poderia dar-lhe uma nova boleia. “Beatriz” aceitou com um sorriso.
Entretanto, chegaram à Figueira e C. perguntou-lhe em que hotel ela queria ficar.
- Não tenho muito sono. Não me queres acompanhar noutra bebida? Também estou com alguma fome...
- Fazemos assim. Eu também mal jantei, como viste. Tenho uma garrafa de vinho branco no frigorífico e acho que se arranja qualquer coisa rápida para comer. Aceitas?
- Aceito, mas só se fores tu a cozinhar. É que eu não tenho jeito nenhum. Ia demorar horas e ainda íamos passar fome.
- Nesse caso, é a tua noite de sorte.
Em dez minutos chegavam a casa dele. Ela descalçou-se para caminhar sem tropeçar...
"Apanhar o Comboio": o início [actualizado]

Lembrava-se de que até à sua adolescência uma das coisas que gostava de fazer era ir para o miradouro da cidade, com vista sobre a via-férrea, ver os comboios passar. Entretanto, a vida foi dando muitas voltas e ela cansou-se de ser uma mera observadora, de ver tudo e todos passarem-lhe à frente e começou a apanhar todos os comboios que podia. Era uma passageira muito passageira. Nunca ficava mais tempo do que o necessário. A verdade é que depois de muitas traições e muitas lágrimas corridas, achou que devia ser ela a comandar a locomotiva. Chamava aos seus affairs “apanhar o comboio”. Tudo começou na noite em que o Manuel a tinha voltado a trair com mais uma quarentona. Era apenas mais uma das muitas traições que lhe tinham sido infligidas. Pôs a sua roupa toda numa mala e saiu de casa sem deixar palavra. Apanhou o táxi para a estação, mas ao invés de se dirigir para a bilheteira, atravessou a rua e foi sentar-se ao balcão do bar que ficava ali em frente. Pediu vodka atrás de vodka, sem proferir mais palavra. O empregado do balcão não tirava os olhos dela, sem saber o que pensar. Como viu que ela tinha a carteira cheia, calou-se e foi servindo. Além disso o bar estava às moscas. A rapariga era jovem, bem parecida, estava vestida elegantemente, não parecia uma galdéria, daquelas que por vezes ali passam. Ao quarto vodka a rapariga começou a chorar silenciosamente enquanto bebia, apenas soluçando baixinho de vez em quando. De olhos fixos no copo, não olhava ninguém. Foi quando entrou o C. O C. era um trintão bem parecido, vestido de fato e gravata, muito vistoso, moreno, cabelos pretos e com um sorriso irresistível. Sentou-se ao balcão, do lado dela, sem, inicialmente, lhe deitar qualquer olhar. Perguntou ao empregado o que se podia arranjar para comer e pediu informações acerca de uma morada. Era vendedor. Quando pegou na sua imperial, ouviu a rapariga pedir mais um vodka, com a voz já um pouco embargada, e pousou o seu olhar nela.
- Desculpe estar a meter-me, sei que não é nada comigo, mas se calhar não devia beber mais.
O empregado sentiu-se aliviado por alguém se meter, mas por outro lado amaldiçoou-o por lhe estar a acabar com a única fonte de rendimento da noite.
- Tem razão. Sem querer ser mal educada, não é nada consigo. – disse enquanto dava o último gole no copo. – Mais um, por favor. E uma imperial para este senhor. Não me vai deixar a beber sozinha, pois não?
- Agradeço a imperial, mas vou ter mesmo de a deixar só. Tenho de regressar ao trabalho daqui a pouco. A senhora como vai para casa? Quer que lhe chame um táxi?
- Não, eu vou apanhar o comboio. – disse com dificuldade.
- E a que horas é esse comboio?
- Não sei... ainda não comprei bilhete. Não sei muito bem para onde ir.
- A senhora não está bem. Quer desabafar, contar-me o que se passou? Já comeu alguma coisa? Traga uns aperitivos, por favor, e uma água das pedras.
- Ah, não! Detesto água das pedras. Quer pôr-me mal disposta?
- Não, quero evitar que fique, o que não deve demorar a acontecer. Quanto já bebeu?
- Pouco. Pouco.
Enquanto falavam ele foi-lhe despertando a atenção. Aquele era o tipo de homem que mexia com ela. Ficou com vontade de ser como as outras mulheres que lhe tinham invadido a casa, que não pensavam nas consequências, não se punham com moralismos, não pensavam, ponto. Era tão mais fácil. E ele atraía-a.
Entretanto, o telemóvel dele tocou. Atendeu e, vendo-o distraído, ela aproveitou para o olhar melhor, enquanto fazia sinal ao empregado para lhe servir um último vodka, coisa a que este prontamente se dispôs. O telefonema foi curto e de poucas palavras.
- Parece que hoje já não tenho mais trabalho. Talvez possamos conversar e explica-me melhor o que se passa consigo. E não devia continuar a beber ou não vai dar pela sua estação quando chegar a hora de ir para casa.
- É o último e não tenho casa. Já não vou para lado nenhum hoje e não quero falar de coisas que já não interessam. No entanto, agradar-me-ia a sua companhia. O meu nome é Beatriz e até há pouco tempo era relações públicas.
- O meu nome é C. e sou vendedor. Não sou destas bandas. Vim aqui em negócios hoje mas parece que perdi a noite. Ainda tenho de fazer a viagem de volta a casa. Sou da Figueira da Foz. E a Beatriz, para onde ia?
- Podemos tratar-nos por tu, feitas as apresentações? Bem, C., eu não sou de cá. Morava cá mas as coisas não correram bem e agora não sei muito bem para onde ir. Por isso não fui logo para a bilheteira. A Figueira da Foz parece-me bem... Acho que estou a precisar de ver e ouvir o mar, sentir a maresia no rosto. Ajuda-me sempre a pensar. Davas-me uma boleia?
- Com toda a certeza. Acho que nos ajudaremos um ao outro. Eu não tenho de fazer o caminho de volta sozinho e a Beatriz... e – tu - tens tempo para te recompor.
“Beatriz” sorriu pela primeira vez naquela noite. Não só por C. mas também pelos vodkas todos que já tinha bebido. Não queria saber muito de C. Naquela noite simplesmente queria esquecer-se de quem era e não pensar. Agir consoante os impulsos, os desejos. Naquele momento desejava-o.
Pegaram nas coisas e saíram. Ela dava pequenos passos, tentando com esforço não cambalear. O empregado sorria maliciosamente.
sexta-feira, 15 de junho de 2007
De passagem...

O começo da viagem prometia ser igual a tantos outros e o discurso inicial e monocórdico a dar as boas vindas, que fluía pelas colunas e flutuava pelo interior da carruagem, obedecia ao quadro habitual. No entanto, nesse mesmo discurso, uma palavra sobressaiu como nunca e se realçou para não mais esquecê-la durante a viagem: a palavra passageiros!
Nunca antes me tinha detido nela, no seu significado e aplicação neste contexto.
Uma análise mais profunda levou-me a concordar no seu sentido mais literal e a aperceber-me que de facto eu sou apenas um passageiro neste comboio.
Este comboio vai realizar esta e outras viagens, quer eu esteja nele ou não, quer o meu percurso seja curto ou longo; ele tem o seu rumo marcado e várias irão ser as pessoas que farão parte dele enquanto não chegarem ao seu destino.
Estou aqui apenas de passagem por este comboio e pelas terras por onde passo - pensei!
Daí a uma analogia com a própria vida e com o mundo foi o tempo de chegar a outra estação, Santarém para ser exacto. Pouco depois a viagem prosseguia e com ela a minha divagação.
Se repararmos, também nós estamos apenas de passagem por este mundo, somos passageiros nesta viagem que é a vida e que dura o tempo de chegarmos ao nosso destino, a que alguns chegarão, infelizmente, mais cedo que outros. Para uns será uma viagem conturbada cheia de incidentes, azares; para outros um passeio; para todos uma experiência única!
À medida que os quilómetros me afastam cada vez mais da minha infância (Viseu) e me aproximam do meu futuro (Tavira), começo a reparar nas pessoas que embarcaram comigo nesta viagem e até nelas encontro semelhanças com as posturas que encontro lá fora perante a vida!
Sempre existirão aqueles que preferem o lugar da janela, de modo a poderem viver melhor tudo o que se passa à sua volta, que têm interesse e gosto pelo conhecimento do que os rodeia ou passa por eles; por outro lado também há aqueles que fazem esta "viagem" de olhos fechados e alheios a tudo sem nunca chegarem bem a experienciar ou a aproveita-la, são pessoas a quem os acontecimentos passam literalmente ao lado; depois há aqueles que não sabem bem qual é o seu lugar e andam perdidos por aí; há os que ajudam os outros a encontrar o seu lugar; há os insatisfeitos que não estão bem em lado nenhum, criticam tudo e que passam a vida a mudar de lugar; há quem viaje carregado e lentamente e quem percorra o seu caminho leve e sem nada a demorá-lo; há os privilegiados que fazem a "viagem" com toda a comodidade e luxo na primeira classe; há os fora da lei que querem fazer a "viagem" de graça ou a enganar os outros; há os que espiam e vivem a vida dos outros e há até quem se engane e esteja a ir por um caminho que não quer.
Mas, encaremos nós de uma forma ou de outra a viagem, a verdade é que estamos todos juntos nela e estamos todos apenas de passagem. Compramos bilhete sem destino marcado, somos passageiros e, tal como nesta viagem que faço, também na outra uns saem para que haja lugar para outros que vão entrando. Mas, já que estamos aqui, porque não aproveitar e ver as vistas?
Apesar da analogia poucos pontos mais haverão em comum e serão mais as diferenças, certamente. E, se numa viagem eu anseio pelo seu fim, na outra rezo pelo seu prolongamento. No entanto uma ideia compartilho para as duas que é que ambas as viagens são bem mais agradáveis se estiver alguém ao nosso lado para as partilhar.
Nota: Foto e Texto daqui , com a participação especial do Nuno, cuja colaboração e amabilidade o A VER PASSAR COMBOIOS desde já agradece.
Texto revisto por Expresso do Oriente
quarta-feira, 13 de junho de 2007
A fuga

terça-feira, 12 de junho de 2007
200 desencontros... OU do alzheimer OU estou mesmo a precisar de férias longe de tudo e de todos

segunda-feira, 11 de junho de 2007
RUMO AO... PRESENTE #2

RUMO AO... PRESENTE #1


